Património Geológico de Portugal

Inventário de geossítios de relevância nacional

Cabo Mondego

Categoria temática:Registo jurássico na bacia lusitaniana

Proponente(s):Maria Helena Henriques

Contacto:hhenriq@dct.uc.pt

Região:Centro

Município:Figueira da Foz Freguesia:Buarcos

Área do Geossítio (aprox.):1170000 m2

Coord. Geográficas:40.1788889,-8.9061111

Área de protecção:0 m2


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Regime de propriedade:público

Regime de protecção ambiental:
O próprio Geossítio está classificado como área protegida
- Nacional: Monumento Natural do Cabo Mondego

Avaliação quantitativa do valor científico (0-100):92.5

Avaliação quantitativa da vulnerabilidade (100-400):270

Justificação do valor científico:
Integrado numa espessa série de sedimentos hemipelágicos, com alternância de calcários e margas cinzentas, características de fácies marinhas externas (Watkinson, 1986), que representam um intervalo temporal que abarca o Toarciano superior-Caloviano, o Jurássico Médio do Cabo Mondego exibe continuidade, representatividade, acessibilidade e condições de observação que o tornam um perfil de referência da Bacia Lusitânica no âmbito de discussões da especialidade sobre limites estratigráficos de valor global.
O registo fóssil de amonóides (grafoceratídeos e outros táxones, Fernández López et al., 1988a, b, Henriques, 1992, 1995, 1998a, Henriques & Mouterde, 2000, Henriques et al., 1988, 1994, Rocha et al., 1990, Ruget-Perrot, 1961) e de nanofósseis calcários, bem como o registo paleomagnético fundamentaram o estabelecimento formal do GSSP na camada AB11 na Murtinheira (M=134,4, P=359,2 da Carta Topográfica de Vais, Folha 238A) em 1996 pela IUGS (Pavia & Enay, 1997). Os trabalhos posteriores sobre registo de nanofósseis calcários (Perilli et al., 2002a, b), braquiópodes (Andrade González, 2006) e foraminíferos (Canales et al., 2000, Canales & Henriques, 2007, 2008, Carapito & Henriques, 1999) têm vindo a reforçar o valor científico deste perfil no domínio da estratigrafia do Aaleniano-Bajociano a nível global, a que se juntam dados recentes sobre o registo de amonóides da passagem Bajociano-Batoniano (em vários perfis descritos em Fernández López et al. (2006) e Fernández López et al. (2007): 02 (40º11´17´´, 8º54´34´´), 90 (40º11´33´´, 8º54´25´´) e 04 (40º11´52´´, 8º54´9´´), também eles determinantes no estabelecimento do GSSP do Batoniano, proposto para Digne, e do ASP do Batoniano, proposto para o Cabo Mondego (Fernández López et al., 2009).
A passagem entre o Jurássico Médio (Caloviano superior) e o Jurássico superior (Oxfordiano) está representada por uma lacuna estratigráfica (ausência das Biozonas Lamberti, Mariae e Cordatum), relacionada com a descontinuidade, de âmbito bacinal, reconhecida em várias zonas da bacia por diversos autores (referidos em Azerêdo et al., 2003).
Os sedimentos do Jurássico superior (Oxfordiano médio-Titoniano) permitem a observação de corpos sedimentares característicos de ambientes de transição (recifais, lacustres, deltaicos). O registo sedimentar inclui uma grande variedade de estruturas sedimentares bem definidas, acompanhadas de associações diversificadas de fósseis típicos de diferentes ambientes (corais, equinodermes, bivalves, braquiópodes, gasterópodes, crinóides, restos vegetais). É justamente nesta posição estratigráfica (Oxfordiano) que, em 1884, foram reconhecidas várias pegadas de dinossaúrios terópodes, então atribuídas a megalosaurídeos (Antunes, 1998, Santos, 1998).
A parte superior do perfil é constituída por uma espessa unidade siliciclástica, com arenitos, conglomerados e argilitos, fundamentalmente de natureza deltaica, a que se sobrepõem sedimentos terrígenos de idade cretácica.
É com base no seu valor científico que Governo aprova, em Conselho de Ministros de 6 de Junho de 2007, no âmbito das comemorações do Dia Mundial do Ambiente, a Resolução que aprova o Decreto Regulamentar de criação do Monumento Natural do Cabo Mondego, cuja publicação em Diário da República, 1ª série – Nº191-, é publicada em 3 de Outubro de 2007 (Decreto Regulamentar nº 82/2007 do Ministério do Ambiente, do Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional).

ANTUNES, M. T. (1998) – “Dinossauros e Portugal. Dois casos menos conhecidos”. 1st Intern. Meet. Dinosaur Paleobiol., Lisbon, Proc. Vol.: 1-8.
FÉLIX, J. M., SENGO, I. C. & CHAVES, R. B. (2005) – “Geologia, 12º ano”. Porto Editora, 208. p.
HENRIQUES, M. H. (2006) – “O Bajociano do Cabo Mondego como recurso educativo de geociências”. In: F. Carlos Lopes & P. M. Callapez Coord., As Ciências da Terra ao Serviço do Ensino e do Desenvolvimento: o Exemplo da Figueira da Foz, Kiwanis Clube da Figueira da Foz: 51-61.
OLIVEIRA, S. G. B. G. (2000) – “O potencial didáctico e pedagógico de objectos geológicos com valor patrimonial: o Bajociano de Ançã e do Cabo Mondego”. Tese de Mestrado (não-publicada), Universidade de Coimbra, 126 p.
OLIVEIRA, S. & HENRIQUES, M. H. (2000) – “O Património Paleontológico Português e a sua integração nas Áreas Protegidas do território nacional”. I Congr. Ibérico Paleont./XVI Jorn. Soc. Española de Paleontología, Évora, Livro de Resumos: 180-181.
REBELO, D. & MARQUES, L. (2000) – “O Trabalho de Campo em Geociências na Formação de Professores: Situação exemplificativa para o Cabo Mondego”. Formação de Professores. Cadernos Didácticos, Série Ciências, Univ. de Aveiro, 4, 128 p.
SANTOS, V. (1998) – “Dinosaur tracksites in Portugal: the Jurassic-Cretaceous record”. 1st Intern. Meet. Dinosaur Paleobiol., Lisbon, Proc. Vol.: 7-16.



Outros valores e sua justificação:
O perfil do Cabo Mondego é detentor de diversos valores patrimoniais, designadamente do turístico, que lhe é inerente, dada a sua localização privilegiada ao longo da costa atlântica, entre Quiaios (a norte) e Buarcos (a sul), e adjacente a uma cidade típica de veraneio (Figueira da Foz).
Constitui igualmente um marco histórico no desenvolvimento das geociências, a nível internacional, por aí ter sido estabelecido o primeiro estratotipo de limite de um andar do período Jurássico, ou seja, um referente internacional de tempo geológico – o GSSP do Bajociano (Pavia & Enay, 1997).
O perfil do Cabo Mondego é recorrentemente objecto de análise quanto ao seu potencial educativo, nomeadamente na construção de recursos educativos (por exemplo, Félix et al., 2005, Oliveira, 2000, Oliveira & Henriques, 2000, Rebelo & Marques, 2000), embora possa igualmente ser analisado noutras dimensões, tradicionalmente pouco exploradas em contextos educativos, que são igualmente constitutivas da natureza das geociências e do pensamento geológico (Henriques, 2006).

Observações:

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