Geossítios
GEO

Cabo Espichel

justificação do valor científico

Framework Registo jurássico na Bacia Lusitaniana (Miguel Ramalho):
Este sítio corresponde ao troço litoral que começa um pouco a Sul do Cabo Espichel até à Praia dos Lagosteiros. As arribas neste troço são constituídas por uma sucessão contínua de camadas muito inclinadas para Norte, em cuja base pode ser observado um dos melhores cortes geológicos para o Jurássico Superior (Kimeridgiano- base do Cretácico) e que foi estudado em detalhe por Choffat (1901) e por Ramalho (1971). O topo das arribas corresponde a uma superfície de aplanação (cerca de 130-140m). Aquela sucessão é essencialmente constituída por calcários, calcários argilosos, margas e arenitos, depositados em diversos tipos de ambientes costeiros, com abundante conteúdo macro e micropaleontológico (bivalves, gastrópodes, ostracodos, foraminíferos, algas calcárias, entre as quais dasicladáceas e carófitas, etc.). A ocorrência de um nível com amonites Lithacoceras siliceum (Quensted) permite identificar a base do Titoniano, o que até agora só ali foi possível evidenciar. A variabilidade de ambientes sedimentares permitiu, também, estudar o comportamento das suas biofácies (Fürsich; Schmidt-Kittler, 1980). A sua excepcional riqueza microfossilífera, com relevo para os foraminíferos complexos e dasicladáceas, permitiu fundamentar a microbiozonação para o Jurássico Superior português, bem como a definição de novos taxa (Ramalho, 1971). Neste corte podem, também, observar-se níveis com intensa bioturbação, laminitos algais, calcretos, intercalações areníticas fluviais, etc. Foram ainda identificados vários níveis com pegadas de dinossauros, das quais as mais célebres são as da Pedra da Mua, que constitui a arriba sul da praia dos Lagosteiros. Neste local, a passagem Jurássico-Cretácico corresponde a uma sucessão contínua de fácies marinha, ao longo das camadas que afloram naquela praia, sendo, assim, um dos poucos locais em Portugal onde isto se pode observar. O corte geológico aqui descrito tem, pois, excepcional valor científico. 

BRILHA, J., ANDRADE, C., AZERÊDO, A., BARRIGA, F.J.A.S., CACHÃO, M., COUTO, H., CUNHA, P.P., CRISPIM, J.A., DANTAS, P, DUARTE, L.V., FREITAS, M.C., GRANJA, M.H., HENRIQUES, M.H., LOPES, L., MADEIRA, J., MATOS, J.M.X., NORONHA, F., PAIS, J., PIÇARRA, J., RAMALHO, M.M., RELVAS, J.M.R.S., RIBEIRO, A., SANTOS, A., SANTOS, V.; TERRINHA, P. (2005) - Definition of the Portuguese frameworks with international relevance as an input for the European geological heritage characterisation. Episodes, 28 (3), pp. 177-186.
CHOFFAT, P. (1901) - Notice préliminaire sur la limite entre le Jurassique et le Crétacique en Portugal. Bull. Soc. Belge Geol. Paléont. Hydrol. 15, pp. 111-140.
FÜRSICH, F. T.; SCHMIDT-KITTLER, N. (1980) - Biofácies analysis of Upper Jurassic marginally marine environments of Portugal. I. The carbonate dominated facies at Cabo Espichel, Estremadura.  Geol. Rundsch. 69 (3), pp. 943-981.
GEO-SÍTIOS - Inventário de Sítios de interesse Geológico (Ramalho M. M., coord. e colaboradores) (ex-IGM/LNEG): http://e-geo.ineti.pt/bds/geositios.
RAMALHO, M. (1971) - Contribution à l'étude micropalentologique et stratigraphique du Jurassique supérieur et du Cretacé inférieur des environs de Lisbonne (Portugal). Mem. Serv. Geol. Portugal, N.S., 19, 212 pp.

Framework Sedimentos cretácicos da Bacia Lusitânica (Rui Pena dos Reis):
As arribas da Praia dos Lagosteiros mostram o registo sedimentar da passagem do Jurássico final para o Cretácico inferior até ao Hauteriviano, em continuidade. Estes sedimentos registam na base sistemas fluviais que passam superiormente a sistemas marinhos rasos, com corpos recifais. Os sedimentos costeiros que têm já idade cretácica, apresentam um excelente alinhamento de pegadas de dinossáurios. As características de excelente exposição bem como os vestígios de actividade de vertebrados, justificam a relevância do local.

Framework Dinossauros da Ibéria ocidental (Vanda Santos)
Pedra da Mua é um icnótopo constituído por oito jazidas (camadas) com pegadas que pertencem ao topo da sequência sedimentar do Jurássico Superior do Cabo Espichel. A Pedra da Mua é o local com pegadas de dinossáurios mais espectacular do concelho de Sesimbra, não só devido ao sítio privilegiado onde se encontra, mas também pela excelente conservação das impressões e relevância da informação paleobiológica e paleoecológica que proporciona sobre os dinossáurios. Até ao momento identificaram-se: quatro dezenas de pistas, duas das quais pertencentes a terópodes e as restantes a saurópodes, um terópode com cerca de 2 m do solo à anca, um rasto de um saurópode que coxeava (comportamento estranho e pouco conhecido), impressões muito bem conservadas de pés (com marcas de dedos) e de mãos de saurópodes, sete pistas paralelas de saurópodes que constituíam uma manada de indivíduos com cerca de 1,5 a 1,8 m até à anca, três pistas paralelas de saurópodes de grandes dimensões (com cerca de 2,8 m do solo à anca) que seguiam os mais pequenos. O conjunto de pistas paralelas que evidenciam uma manada constituída pelo menos por sete pequenos saurópodes e um grupo de três indivíduos de grandes dimensões, é o mais convincente exemplo de comportamento gregário nos saurópodes, reconhecido numa jazida europeia, bem como o melhor testemunho conhecido entre animais tão pequenos. 

No âmbito da proposta de candidatura IDPI – Icnitos de Dinossáurios da Península Ibérica à Lista de Património Mundial (WHL, UNESCO), a equipa de trabalho procurou seleccionar as jazidas mais significativas de todas as idades geológicas e representativas de todo o espaço da Península Ibérica. Para avaliar e ponderar o valor relativo das dezenas de jazidas conhecidas foram estabelecidos critérios científicos e uma metodologia que permitissem estimar quantitativamente o valor relativo destas ocorrências (Dossier de Proposta de Candidatura IDPI). Os oito sítios em Portugal com pegadas de dinossáurios preservadas in situ melhor classificados, segundo estes critérios e por ordem decrescente de importância científica, são Vale de Meios (Alcanede, Santarém), Pedra da Mua (Cabo Espichel), Pedreira do Galinha (Serra de Aire), Avelino (Zambujal, Sesimbra), Lagosteiros (Cabo Espichel, Sesimbra), Olhos de Água (Foz do Arelho), Pego Longo-Carenque e Praia Grande (Sintra). Vale de Meios, Pedra da Mua, Pedreira do Galinha, Avelino e Praia Grande são os cinco geossítios que propomos para representar a Framework “Pegadas de dinossáurios no Oeste da Península Ibérica”, devido à facilidade de acesso aos locais e porque apresentam condições para serem de imediato valorizados e usados em termos de divulgação científica. Assim, consideramos a Pedra da Mua com Relevância 2.

Trata-se de uma jazida com um valor paisagístico de grande beleza cuja localização facilita a explicação do seu enquadramento geológico. Como tem uma acessibilidade fácil é um local óptimo que pode vir a ser um destino privilegiado de visitas de estudo para alunos do ensino secundário e superior e permite explicar diversos conteúdos no âmbito das geociências a um público mais geral.

Outros valores e sua justificação

O local é de uma impressionante beleza paisagística, pelo panorama que se desfruta sobre toda a costa ocidental da península de Setúbal, acentuado pelo alcantilado da orla marítima e sua cobertura vegetal de elevado interesse botânico. Acresce, ainda, o valor arquitectónico e a beleza do conjunto do Santuário do Cabo Espichel.
O corte reveste-se de excepcional interesse pedagógico, pelas múltiplas exemplos de fácies, fósseis (macro, micro e icnofósseis), estruturas sedimentares e litologias, o que o torna indicado para visitas de estudo, tendo em atenção as dificuldades de acesso aos troços situados na base da arriba.