Geossítios
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Parque Icnológico de Penha Garcia

justificação do valor científico

Paleontologia
A jazida paleontológica do Parque Icnológico de Penha Garcia é conhecida e estudada desde 1883, sobretudo no que diz respeito ao conteúdo paleontológico da Formação do Quartzito Armoricano. Embora ocorram vestí­gios de um nível de braquiópodes quitinofosfatados gigantes de relevante interesse paleoambiental são os icnofósseis que lhe dão reconhecimento. Entenda-se icnofósseis, em toda a sua dimensão, como: estruturas sedimentares porque resultam da interacção entre um organismo e o substrato sedimentar, guardando este a memória do acontecimento, de origem biológica, pois testemunham formas de comportamento do seu produtor em resposta a estí­mulos ambientais, fósseis, enquanto momentos dinâmicos do dia-a-dia de uma vida agora preservada nas rochas. São conhecidos 20 icnogéneros e 24 icnoespécies que tipificam as fácies relativas a esta formação com distribuição peri-gondwanica. Esta jazida é considerada como referência internacional para o grupo Cruziana rugosa pela diversidade de comportamentos determinados, qualidade de preservação e exposição do registo fóssil, dimensões (variando entre mm e as maiores Cruziana que se conhecem no registo paleontológico mundial), assim como a muito rara atribuição a um produtor (trilobite Asaphida) que co-ocorre nas mesmas assembleias. A interpretação de Cruziana como escavações atribuíveis a trilobites foi desenvolvida por Roland Goldring com base em recolhas feitas em Penha Garcia, nos finais da década de setenta. São ainda reconhecidos comportamentos de crustáceos filocarí­deos, de anémonas e de vermes (incluindo poliquetas sésseis e errantes). Deve-se realçar a ocorrência de uma pista de locomoção do tipo Merostomichnites atribuí­da a filocarídeos. Apenas se conhecem duas ocorrências em Portugal e esta é a única observável. Tratam-se dos vestígios mais antigos deste importante grupo de artrópodes encontrados em Portugal. A Formação de Brejo Fundeiro, que também aflora no Parque Icnológico de Penha Garcia, regista ainda a ocorrência de 20 espécies de trilobites, ostracodos, graptólitos, bivalves, braquiópodes e briozoários, em acumulações tafonómicas.

Estratigrafia e Sedimentologia
O Parque Icnológico de Penha Garcia mostra uma sequência completa correspondente à Formação do Quartzito Armoricano, com cerca de 400 m de espessura, assente em concordância sobre a Formação de Serra Gorda (Tremadociano?) e sendo sobreposta pela Formação de Brejo Fundeiro, o estratotipo da Formação de Serra Gorda encontra-se situado nas imediações. Um aspecto raro em Portugal é a ocorrência da Biozona de Didymograptus murchisoni na base da Formação de Brejo Fundeiro, a qual permite atribuir uma idade para o topo da Formação do Quartzito compatí­vel com o Dapingiano superior. Cruziana apresenta uma morfologia a ní­vel específico muito particular invariante num curto intervalo de tempo. Estas formas podem ser bons indicadores cronológicos, sobretudo em sequências siliciclísticas, onde as condições diagenéticas (permeabilidade e quimismo) impediram a preservação de somatofósseis. Os icnofósseis de trilobites, sobretudo o igén. Cruziana, têm uma distribuição à  escala gondwânica durante o Paleozóico Inferior, com grande variabilidade de comportamentos (mais de 34 icnoespécies remetidas ao igén. Cruziana) desenvolvidos em curtos intervalos de tempo (ao ní­vel do Perí­odo). A ocorrência de todas as icnoespécies do grupo Cruziana rugosa permite corresponder grande parte da Formação do Quartzito Armoricano em Penha Garcia, ao Floiano (Ordoví­cico Inferior), podendo atingir o Dapingiano superior, como já se referiu.
Os afloramentos do Parque Icnológico de Penha Garcia são excelentes para a caracterização sedimentológica de duas icnofácies clássicas: Skolithos e Cruziana, permitindo identificar estruturas sedimentares no plano de estratificação e em secção.

História da Icnologia, disciplina da Paleontologia
A Paleoicnologia em Portugal, com uma longa e conturbada história, tem o seu iní­cio precisamente no “Período Reaccionário” (época em que se procurava estabelecer a origem animal dos “Fucóides”, então interpretados como vestígios directos de algas. Pela sua abundância, as Cruziana tornaram-se o centro da controvérsia quanto à  natureza destes fósseis. Nery Delgado, conjuntamente com alguns dos mais eminentes especialistas mundiais da época, como Lebesconte, Marion e De Saporta, defenderam tenazmente a então já contestada origem botânica de grande parte das estruturas biogénicas que ocorrem nestas formações. Dawson (1864) e Nathorst (1881, 1886, 1888), principal oponente de Nery Delgado, relacionavam Cruziana e Rusophycus com a actividade de trilobites e afins por correlação neoicnológica. Nery Delgado considerava apenas as formas que englobava no grupo das “Bilobites”, Cruziana, Rusophycus, Arthrophycus, Skolithos e “Fraena”, como moldes internos de algas relacionados com as Sifonáceas (Delgado, 1885, 1888). Na base da importante monografia dedicada às “Bilobites” estão, na sua maioria, icnofósseis recolhidos em Penha Garcia. Os trabalhos de Nery Delgado foram fundamentais para o estabelecimento da Icnologia moderna por Adolf Seilacher, no início da década de 50. O modelo interpretativo vigente para as Cruziana, enquanto excavações produzidas por trilobitomorfos, foi estabelecido por Roland Goldring em meados da década de oitenta, através do estudo de exemplares de icnofósseis de Penha Garcia.

Geomorfologia
O Parque Icnológico de Penha Garcia localiza-se no vale do Rio Ponsul, em garganta quartzítica com 150 m de profundidade e cerca de 1 km de extensão. O relevo quartzí­tico de Penha Garcia, do tipo “Apalachiano” é exemplar, erguendo-se aqui 200 m acima da Superfí­cie de Castelo Branco que se estende, monótona e ocasionalmente retalhada pela incisão fluvial, pela Extremadura. O encaixe epigénico do Rio Ponsul deu-se nos últimos 2 milhões de anos, facilitado pela existência de um conjunto de falhas de orientação N-S e WSW-ENE, uma das quais rejeitando em 200 m a Serra do Ramilo, com movimento de desligamento esquerdo.

Tectónica
As 3 fases de deformação Varisca encontram-se bem representadas neste trecho do flanco SW do sinclinal hectaquilométrico de Penha Garcia-Cañaveral, sob a forma de belas dobras mesoscópicas e falhas de rejeitos verticais e horizontais.

Outros valores e sua justificação

Em Penha Garcia, os icnofósseis do tipo Cruziana são denominados pelas gentes locais de “Cobras Pintadas” cuja etimologia se perdeu nos confins da memória. É um dos paradigmas de fósseis transformados em hierofanias ou etnemas, através de lendas e de ritos. Por séculos icno-hierofanias na condição de sÃímbolo identitário da comunidade, as Cruziana foram a base para a criação de um paradigma de desenvolvimento sócio-económico assente no Turismo de Natureza, em Portugal, com a criação do Geopark Naturtejo da Meseta Meridional sob os auspí­cios da UNESCO. Hoje e para o futuro, as Cruziana do Parque Icnológico de Penha Garcia tornam-se referenciais geoturísticos que legitimam oportunidades sustentáveis de negócio e de educação para uma cidadania que se quer próxima da condição de seres biológicos integrados no sistema Terra. 
Este sí­tio é caracterizado por apresentar uma grande diversidade de espécies, entre as quais algumas tí­picas dos dois habitats distintos que a caracterizam, estepário e rupí­cola.
- Castelo de Penha Garcia, mandado construir por D. Sancho I e doado aos Templários por D. Dinis, em 1303, passando para a Ordem de Cristo em 1314, pertencente à  Linha Templária Raiana do Erges.
- Complexo moageiro de Penha Garcia, no canhão fluvial do Rio Ponsul, com origem anterior ao iní­cio do séc. XVI.
- VestÃígios da exploração remota de óxidos e hidróxidos de ferro/fundição (escórias).
- O geossítio em apreço corresponde a um dos 16 “geomonumentos” que possibilitou a integração do Geopark Naturtejo da Meseta Meridional nas redes Europeia e Global de Geoparques, sob os auspí­cios da UNESCO

Observações

Este geossí­tio integra o Geopark Naturtejo da Meseta Meridional.