Geossítios
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Praia de Quebradas

justificação do valor científico

Nas arribas que circundam esta pequena praia foram definidos os estratotipos das Formações de Murração e de Quebradas (Oliveira e tal. 1985). Assim, na ponta da Pedra das Safias, a norte, aflora em boas condições a secção tipo do membro inferior da Formação de Murração, designado por Membro da Pedra das Safias, constituído por alternâncias de bancadas de calcários dolomíticos e de margas, de espessuras centimétricas a decimétricas, em posição vertical, e com a espessura total de 26m, ricas em associações fossilíferas de crinóides, trilobites, corais isolados, etc que lhe conferem a idade de Viseano Inferior a Médio (345- 336 Ma) . No lado norte da Praia de Quebradas, na parte inferior da arriba, aflora, em excelentes condições, e em posição tectonicamente invertida, a secção tipo do membro superior da Formação de Murração, designado por Membro de Vale Figueira. A sucessão é constituída por alternâncias de bancadas, com espessuras centimétricas a decimétricas, de calcários e de xistos argilosos escuros, que no total perfazem 35 m de espessura. Os calcários e os xistos são particularmente ricos em associações de amonóides do Viseano Superior (336-328 Ma), tendo fornecido três novas espécies desta classe (Korn 1997) designadamente Pronorites meridionalis, Eoglyphioceras serotinum e Sudeticeras murracaoens. Além destes há ainda fósseis de Posidonia becheri BRONN e corais isolados. Os xistos argilosos forneceram  miosporos de todas as biozonas( Nl, Pu, TS, and SN) do Viseano Superior (Pereira, 1999). Herbig et al. 1999 apresentaram argumentos em favor da existência nesta secção do evento Crenistria identificado no norte da Europa. Esta conclusão reforça a interpretação anterior (Oliveira et al, 1979) segundo a qual a zona Sul Portuguesa terá estado na continuidade geográfica do Sudoeste da Inglaterra e Norte da Alemanha durante o período Carbónico. 
Na arriba central da praia está muito bem exposta a secção tipo da Formação de Quebradas, com espessura total de 70 m. Esta unidade é caracterizada pela predominância de bancadas de pelitos negros carbonosos e intercalações de leitos e lentículas de carbonatos, um nível de pelitos e siltitos laminados na parte superior, com 10 m de espessura, e vários horizontes com nódulos fosfatados. A sucessão das bancadas mergulha para NO, em posição tectonicamente invertida (topo para Sul). A unidade é particularmente rica em amonóides, que indicam as biozonas R1, R2 e G1 G2 do Baskiriano (318-311Ma). Foram aqui identificadas as seguintes novas espécies de amonóides (Korn 1997): Metadimorphoceras pix, Anthracoceratites lacerus, Ramosites quebradas, Ramosites sousai, Homoceras mnemancestralis, Aljezurites Katharinae, Vallites kullmanni, Reticuloceras melanum,Rreticuloceras scapum, Retites alector, Homoceratoides svetlanae, todas da biozona R1, Glyphiolobus aestivalis,Stenoglephirites cireneus, Marianoceras hesperium, da biozona R2, Gastrioceras supinum, Agastrioceras clathratum e Chaerogastrioceras reifi, da biozona G2. Não foram reconhecidas as biozonas E1, E2 e H. Em termos de biozonas de miosporos, foram identificadas todas as que são reconhecidas na Europa para o Baskiriano, com excepção das biozonas TK e SO do Serpukoviano, o que coincide com a ausência de amonóides desta idade, facto que sugere a existência de um lacuna na base da unidade. 
O topo da Formação de Quebradas contacta, por falha normal, com os turbiditos da Formação da Brejeira que forneceram miosporos da biozona SL do Moscoviano Inferior.
A Formação de Murração terá sido depositada numa plataforma marinha carbonatada e as litologias da Formação de Quebradas num ambiente marinho mais restrito da margem dessa plataforma, onde se terão verificado fenómenos de upwelling como é sugerido pela presença dos nódulos fosfatados
Em termos de geologia estrutural, a meio da arriba norte da praia está exposta, mas inacessível, a charneira de uma dobra decamétrica instalada no flanco inverso da grande dobra regional vergente para SO. A clivagem xistenta é aqui incipiente e sub-paralela à estratificação. Nesta mesma arriba notam-se falhas tardias verticais orientadas para NE, que provocam abatimento de blocos. 
Este local é particularmente importante em termos paleontológicos devido à presença das novas espécies de amonóides.
A sucessão estratigráfica que engloba as formações de Murração e de Quebradas é a mais completa de todo o Carbónico marinho da Zona Sul Portuguesa Ibérica, e uma das mais completas de todo o Maciço Hespérico, no que respeita ao Dinanciano, Serpukoviano e Baskiriano. 
A correspondência que é possível estabelecer entre as biozonas de amonóides e de miosporos, bem como a boa correlação que se verifica com as sucessões do Norte da Europa, fazem destas secções portuguesas sítios de referência decisivos na reconstrução paleogeográfica relativa ao Orógeno Varisco Europeu.

Bibliografia:
Herbig, Hans-Georg, Korn, D., Mestermann, B., 1999. Crenistria event and Asbian-Brigantian transition in the South Portuguese Zone- Sea level control on a hemipelagic Late Dinantian platform. Facies, 41, 183-196. ERLANGEN 1999
Korn, D., 1997. The Paleozoic ammonoids of the South Portuguese Zone. Memórias do Instituto Geológico e Mineiro, Portugal 33, 131 p. Large, R., Blundell, D. (Eds.), 2000. Database on Global VMS districts.CODES-GEODE, 179 p. 
Oliveira, J., Horn, M., Paproth, E., 1979. Preliminary note on the stratigraphy of the Baixo-Alentejo Flysch Group, Carboniferous of Portugal, and on the palaeogeographic development compared to corresponding units in NorthWest Germany. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal 65, 151-168.
Oliveira, J., Horn, M., Kullmann, J., Paproth, E., 1985. The stratigraphy of the Upper Devonian and Carboniferous sediments of Southwest Portugal. C.R. 10e, International Congress Stratigraphy Geology Carboniferous, Madrid 1983, 1, 1-17.
Pereira, Z., 1999. Palinoestratigrafia do Sector Sudoeste da Zona Sul Portuguesa. Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, 86, 25-57
Ribeiro, A., Silva, J., 1983. Structure of the South Portuguese Zone In: Lemos de Sousa, M.J., Oliveira, J.T. (Eds.), The Carboniferous of Portugal, Serviços Geológicos de Portugal 29, 83-89.

Outros valores e sua justificação

Do topo da arriba central da praia pode desfrutar-se magnífica panorâmica do litoral da Costa Vicentina. A praia, em si, devido ao acesso difícil, está desprovida de construções urbanas, o que permite aos visitantes um contacto com a natureza no seu estado mais puro.
Para os apreciadores da biodiversidade, na região poderão encontrar grande variedade de aves (águia-pesqueira, pombo bravo, falcão peregrino, gralha de bico vermelho, etc), de fauna (zorra, gato bravo, sacarrabos, lontra,etc), de flora ( 750 especies na Costa Vicentina, das quais 50 endémicas e 12 únicas no mundo). Em termos de fauna marinha, é muito conhecida a riqueza desta costa em sargos, percebes, navalheira, polvos, etc, que fazem as delícias dos pescadores, e com alguma sorte poderão ser observados golfinhos e mesmo tartarugas.